Será que um computador conhece você melhor do que seus próprios amigos?

Por Ryne Sherman

Alguns anos atrás, eu estava em uma livraria e ouvi alguém no rádio falar sobre um novo estudo publicado no Proceedings of National Academy of Sciences (PNAS) mostrando que um algoritmo de computador, contando apenas com as coisas que você “curte” no Facebook, faz julgamentos mais precisos da sua personalidade do que seus amigos. Se você ouviu falar sobre este estudo, pode ter feito você se sentir um pouco reticente. Talvez até tenha feito você querer excluir sua conta do Facebook. Na esteira da Cambridge Analytics, é certamente razoável imaginar quantas empresas de big data (como o Facebook, o Google, a Verizon ou o Visa) conhecem sobre você. Tendo revisado pessoalmente este estudo antes de ser publicado, não fiquei muito preocupado. E vou dizer por que.

O estudo em si mostrou que preferências agregadas ao Facebook (ou seja, as coisas que você gosta no Facebook) podem ser usadas ​​para prever traços em um teste de personalidade. Além disso, quando o número total de curtidas é grande o suficiente, as preferências agregadas mostram um relacionamento mais forte com a personalidade prevista do que os relatórios de seus amigos, familiares, cônjuge ou colegas. Isso foi amplamente relatado para indicar que os computadores fazem melhores julgamentos de personalidade do que os humanos. E essa conclusão apresenta alguns problemas.

  • Os dados mostram que a correlação entre a percepção de um indivíduo sobre a sua própria personalidade e a percepção de outras pessoas era de 0.49, enquanto que a correlação entre a autopercepção e as conclusões obtidas pelo sistema que analisou o histórico desse indivíduo nas mídias sociais era de 0.56. Em termos reais, se você julga estar “acima da média” em um determinado traço de personalidade, seus amigos terão essa percepção 74,5% do tempo, e o algoritmo de computador vai predizer esse número em 78%. Essa diferença é importante.

3) Embora os relatórios tenham feito parecer que os computadores têm algum tipo de conhecimento que nós não sabemos, isso não é verdade. O algoritmo baseado em computador para fazer julgamentos de personalidade é baseado inteiramente no comportamento da pessoa. Isto é, “gostar” de algo no Facebook é um comportamento. O computador está tomando a soma total desses comportamentos e usando-os como base para o “julgamento”. Criticamente, esses comportamentos vieram da pessoa cuja personalidade está sendo julgada. Assim, pode-se argumentar que os julgamentos pelo sistema estão apenas tomando a visão do indivíduo acerca do seu próprio comportamento ou preferências (por exemplo, eu gosto de Starbucks) com a auto percepção de personalidade. Em outras palavras, o artigo mostrou que o modo como você descreve sua própria personalidade está relacionado às coisas de que gosta. Quando você coloca isso assim, não parece tão estranho.

Minha intenção não é denegrir o estudo. Foi um estudo interessante e bem conduzido sobre avaliação da personalidade. Ainda assim, o que seria mais interessante seria saber até que ponto um conjunto de coisas que se curte no Facebook prediz (a) a reputação de alguém e (b) como age no trabalho. Em relação ao primeiro, os dados deste estudo indicam que a relação entre curtidas e reputação do Facebook é bastante fraca, sugerindo que o comportamento do Facebook é principalmente sobre identidade, não reputação. Em relação ao comportamento no trabalho, parece não haver estudos falando sobre a questão.