“Atualmente atuo como Gerente de Supply Chain, e estou há 3 anos trabalhando em uma multinacional. Tenho 36 anos e gostaria de saber qual é o melhor momento da carreira para buscar coaching. Como eu sei que é o momento ideal? Preciso esperar uma crise ou estar desempregada?”

Roberto Santos, sócio-diretor da Ateliê RH, responde:

Na atualidade em que coaching virou até tema de novela e os cursos e sites de coaching se multiplicam em velocidade epidêmica, seu questionamento é extremamente válido para que não se embarque em modismos inócuos e ineficazes.

Quando você pergunta sobre o momento mais adequado da carreira para se fazer coaching e o relaciona com crise ou desemprego, percebe-se uma associação com o tipo de apoio que começou há mais de 20 anos no Brasil, com os serviços de “outplacement” para ajudar executivos a se recolocarem no mercado. No início dessa atividade ainda nem se falava em “coaching” mas o foco era ajudar a pessoa desempregada a se preparar para entrevistas, incluindo atualizar seu CV, apresentar-se ao mercado e outras atividades que o(a) desempregado(a) de muitos anos de empresa nem sabia do que se tratava. Nesses casos, a crise e o desemprego já tinham batido na porta e o “outplacement” era uma boia de salvação que as empresas pagavam para lançar ao mar, em parte para “aplacar sua culpa.” Empresas de “recolocação” se multiplicaram, o serviço expandiu, seu custo baixou e ficou acessível para outros níveis nas organizações, mas o foco era (é) ajudar a pessoa na “rua da amargura” a se levantar e partir para uma recolocação.

Em minha vida de executivo de RH, talvez, eu tenha sido uma das primeiras empresas a contratar um serviço “pré-desligamento” de uma das pioneiras e mais famosas consultorias de “outplacement” globais e no Brasil. Tratava-se de um executivo com excelentes credenciais, qualidades e resultados técnicos, mas com problemas de atitude e comportamento, cujo desligamento se desejava evitar mas que seria inevitável, sem uma mudança de suas parte. Então contratamos o que depois se popularizou pelo nome de “coaching” que já existia em outros países mais desenvolvidos. O final da história foi feliz e o executivo ainda permaneceu por vários anos na empresa e saiu por sua iniciativa para outra oportunidade.

Ao contar este caso, já respondo parte de seu questionamento — “preciso esperar uma crise ou estar desempregada?” — com certeza, não. Existe então uma idade ideal para se fazer coaching? — a resposta também é negativa, se pensarmos em sentido estrito, ainda que dentre inúmeros estudos sobre o assunto, se destaca a Antroposofia de Rudolf Steiner, filósofo austríaco, que divide a vida em setênios e descreve aquele período que vai dos 35 aos 42, em que se vive um momento importante de reflexão: quem sou eu? quais meus valores? o que realmente eu quero para minha carreira e minha vida?(*) e outras reflexões essenciais para nosso autoconhecimento. Muitas pessoas dão uma guinada em sua vida em torno dos 35 anos, quando muito já atingiram relativa maturidade profissional e buscam um sentido mais autêntico para seus próximos 25 anos — período que pode ser ampliado à medida que aumenta nossa longevidade e encolhe nossa aposentadoria.

Assim, parte de minha resposta para você é — o coaching pode ser um apoio fundamental para apoiar suas reflexões de autoconhecimento — qualquer que seja sua idade.  Ele pode fazer a diferença para você saber se está no caminho certo, isto é, aquele que irá realizá-la no longo prazo por estar alinhado aos valores que lhe são mais significativos.

Ainda que nunca seja cedo ou tarde para se ampliar o autoconhecimento, em termos de carreira profissional, geralmente, ele se faz necessário em momentos de transição de carreira como mudança de área, de nível de cargo, de liderança, de geografia, de empresa ou um momento de frustração em que nada mais lhe traz satisfação em seu trabalho, com ressonâncias na vida pessoal.

Há um livro de um dos coaches mais famosos do mundo (Marshal Goldsmith) cujo título e conteúdo tratam dessas fases: “O que a trouxe até aqui, não a levará onde você quer chegar” — temos que rever o que trazemos em nossa “mochila”, jogar fora algumas coisas para ceder espaço para novos conteúdos. Na prática, temos que desaprender velhos hábitos e conceitos para podermos adquirir novas ideias, conhecimentos e habilidades. Particularmente nos dias de hoje, a competência mais solicitada pelas empresas é a “agilidade de aprendizagem” pois vivemos em um mundo em transformação acelerada como nunca vivido anteriormente.

Então, busque o apoio de um “coach” quando sentir que sua “bagagem” já não está dando conta de sua jornada atual, tendo em vista o destino almejado. O apoio ao autoconhecimento que pode ser propiciado por um bom processo de coaching de carreira poderá fazer a diferença para afinar o que eu chamo de GPS — Guia para o Sucesso — em sua vida profissional e suas ressonâncias pessoais.

(*) se você tiver interesse em saber mais sobre esses setênios, recomendo a leitura do artigo resumido de Jair Moggi neste artigo do Vya Estelar onde também tive (tenho) a honra de colaborar.