Roberto Santos responde: Como realizar um bom trabalho em uma tradicional empresa familiar tradicional?

“Estou cursando o 7º período de Administração de Empresas. Trabalhei por 18 anos em uma empresa privada, no ramo de varejo. Passei por diversos cargos (repositor, encarregado, técnico de qualidade, supervisor técnico, gerente técnico de alimentos e gerente de compras).

Depois dessa experiência, comecei a trabalhar em uma empresa menor, que me deu maior abertura na visão de gerenciamento, pois na outra empresa eu respondia por uma célula específica. E nessa segunda empresa tive que controlar tudo: RH/Marketing /Comercial /Operações.

Atualmente, estou em uma empresa familiar, sou gerente geral de uma rede de 11 unidades, respondo por quase tudo e sinto muita dificuldade no trato das coisas, existe uma centralização enorme, onde você fica totalmente dependente de membros de família, muitas das decisões são tomadas sem embasamento técnico, apenas pela vontade da família.

Acredito muito que possa ser feito um excelente trabalho, mas estou chegando ao ponto de ficar doente, física e psicologicamente, estou desenvolvendo uma depressão e buscando ajuda de um profissional, me sinto muito desanimado em continuar nessa empresa, tenho o respeito e admiração de todos, mas sinto que a questão familiar ao mesmo tempo que tem seus pontos positivos na cultura da empresa, atrapalha bastante.”

Roberto Santos, sócio-diretor da Ateliê RH, responde:

Primeiramente, cabe um sincero elogio por uma bela carreira percorrida dos cargos iniciantes no varejo a Gerente de Compras que revela a amplitude de suas competências, de execução operacional ao trabalho técnico especializado e mais recentemente, a responsabilidade por importante área comercial — que revela ainda a confiança que você conquistou. Imagino que os 18 anos neste varejo e as experiências posteriores foram intensos, permitindo sua dedicação aos estudos apenas nos últimos três anos. A ampliação de seu campo de atuação como gerente geral lhe abriu novas oportunidades como a empresa familiar atual. Dentro do conceito das seis passagens pelo “pipeline de liderança” de Ram Charan, você já venceu pelo menos as quatro primeiras — de gestor de si mesmo a gestor de pessoas, depois como gestor de gestores, seguida por gestor funcional e hoje como gestor de um negócio.

Toda essa introdução elogiosa e de reconhecimento tem o propósito de contrabalançar com seu olhar ao copo meio vazio, causado por uma experiência insatisfatória nesta empresa familiar. O desânimo e a potencial depressão podem de fato levar à visão turva e pessimista causada pelas condições de trabalho atuais. A admiração e o respeito de todos parecem não mais serem suficientes para sua realização pessoal, e mesmo estes ingredientes podem ser abalados se seu desânimo e depressão prejudicarem seu desempenho.

Minhas sugestões em casos semelhantes começam com um “pit stop” em seu dia a dia para cuidar do autoconhecimento estratégico sobre sua personalidade e seus valores e motivações. É muito provável que a empresa familiar não mudará sua cultura e seu estilo de gerir os negócios. Por outro lado, mudanças drásticas em seu perfil de personalidade, revelado em

seus comportamentos e atitudes, especialmente quando violentam seus valores e motivações essenciais, podem, como você já percebeu, trazer prejuízos à sua saúde física e psicológica.

Uma das duas partes está errada? Provavelmente, não. O problema está em tentar encaixar uma peça redonda em um buraco quadrado — forçar a entrada não acontece sem custos para ambos os lados, e em seu caso, apenas para você. Há pessoas que preferem que lhes digam o que fazer e raramente tomam decisões sem antes consultar os superiores e há chefes que se ajustam perfeitamente a subordinados subservientes e sem iniciativa — sentem-se poderosos pela dependência de sua equipe. Aparentemente, você tem outro DNA de gestão — gosta de tomar iniciativas e precisa contar com grande dose de autonomia e empoderamento dos superiores para realizar o que julga o melhor para o negócio. A tentativa de forçar a interação de DNAs tão diferentes é como misturar óleo e água, fadada ao fracasso e para prejuízo predominantemente seu.

Aproveite enquanto você não foi ao fundo do poço da depressão e conta com a admiração da empresa, para pesquisar ativamente novas oportunidades no mercado. É provável que você seja considerado para trabalhos mais interessantes com culturas mais compatíveis com seu perfil. Participar desses processos já contribuirá para voltar a motivá-lo e reanimá-lo para mudar e fugir do descarrilamento inevitável dos trilhos de sua carreira.