Por Robert Hoganpublicado originalmente no blog internacional da ICF

A maioria das pessoas interessada em ajudar os outros na melhoria da carreira vai concordar que as diferenças individuais no tocante ao autoconhecimento impacta no desenrolar da carreira. Esse artigo vai se desenrolar sobre três aspectos: Como definir autoconhecimento? O autoconhecimento importa? E como aumentar o autoconhecimento?

Como definir o autoconhecimento? Sigmund Freud tem o crédito de popularizar a noção de que as pessoas não têm conhecimento das razões dos seus atos. De acordo com Freud, o comportamento social é dirigido por forças inconscientes – motivos e desejos escondidos do conhecimento consciente. Ainda que as pessoas possam prover explicações para o seu comportamento, essas explicações são racionalizações; as pessoas agem por motivos pelos quais não podem entender, e inventam justificativas para explicar porque agiram de uma determinada maneira.

Ainda que Freud tenha popularizado o conceito de inconsciente, Karl Marx (e depois outros sociológos), também afirmam que as pessoas crescem em uma determinada cultura e classe social, internalizando seus valores locais e, subsequentemente, esses valores controlam suas vidas de maneira inconsciente. Então, tanto para Freud quanto para Marx, as pessoas não têm consciência das razões dos seus atos – e essas razões estão fora do seu controle. O filósofo existencialista J.P. Sartre contribuiu para a discussão do autoconhecimento de duas maneiras diferentes. Primeiro, ele argumenta que a natureza da realidade (aquela a qual nossas vidas não têm significado intrínseco) é mais do que as pessoas podem suportar, então as pessoas acabam caindo no autoengano e fingindo que aquilo que elas fazem todo dia tem algum significado. Segundo, ele também propôs que as pessoas têm uma obrigação moral de enfrentar a realidade – ou seja, temos um compromisso moral com o autoconhecimento, com o conhecimento verdadeiro do que fazemos e porque estamos fazendo. Em contraste com Freud e Marx que nos veem como vítimas do autoengano, Sartre diz que somos pessoalmente responsáveis pelo autoconhecimento.

Agora, chegamos ao ponto desta discussão. Na tradição definida por Freud, Marx e Sartre, o autoconhecimento diz respeito ao descobrimento das origens inconscientes do nosso comportamento diário – por exemplo, aprender porque nos comportamos dessa maneira e então, desta maneira, podemos nos comportar melhor. Eles também concordam que podemos realizar esse processo de autodescobrimento a partir da autorreflexão e da introspecção – devemos olhar para dentro e ruminar nossas ações passadas, e as possíveis razões para elas. Essa visão de que as pessoas podem alcançar o autoconhecimento pela autoanálise e introspecção é uma daquelas verdades que todos acreditam, mas que não é verdade.

Para ser bem claro, estou dizendo que o autoconhecimento não pode ser ligado à introspecção, e  eu digo isso por três razões. A primeira razão tem a ver com a natureza da personalidade; a segunda razão está ligada à natureza da introspecção; e a terceira razão tem a ver com o que Sócrates conhecia e com o que nos esquecemos. Começando pela natureza da personalidade, é importante distinguir identidade de reputação. A indentidade abrange nossas esperanças, medos, sonhos, e aspirações; identidade fala da pessoa que pensamos ser; identidade é personalidade a partir da perspectiva do agente. Por outro lado, reputação diz respeito sobre como os outros nos veem e como nos avaliam como agentes; reputação é a personalidade vista a partir da perspectiva do observador.

Identidade tem a ver com a pessoa que você pensa que é; reputação está relacionada à pessoa que os outros pensam que você é. Há o você que você conhece, e há o você que os outros conhecem; eu diria que o você que você conhece (sua identidade) dificilmente vale a pena ser conhecida – porque você inventou essa pessoa. Mais importante que isso: 100 anos de pesquisa sobre identidade não levou a lugar algum. Não há taxonomia, base de mensuração, ou generalizações confiáveis nas quais se basear. Por outro lado, 20 anos de pesquisas sobre reputação foram enormemente produtivas: há uma taxonomia amplamente aceita (a teoria dos Cinco Fatores), uma forma mensuração, e um corpo enorme de descobertas. Finalmente, os relatórios sobre identidade quase não se relacionam aos relatórios de reputação: o você que você conhece não é a mesma pessoa que os outros conhecem.

Agora considere o ato da introspecção. Quem faz introspecção? Neuróticos, psicólogos e minha ex-mulher. A disposição à introspecção é normalmente distribuída. Ao final da fila estão os neuróticos e psicólogos, e do outro lado estão as pessoas que são incapazes. A disposição à introspeção é distribuída e ser bom em fazer isso não confere qualquer vantagem adaptativa. O que as seguintes pessoas têm em comum? Voltaire, Ulysses S. Grant, Margaret Thatcher e Ronald Reagan? Por um lado, eles são figuras históricas mundiais; de outro, são incapazes de fazer introspecção. O que podemos concluir desse fato? Que o sucesso da carreira é independente da capacidade de introspecção.

Finalmente, Sócrates e os gregos antigos finalmente recomendaram: “Conhece-te a ti mesmo”; eles recomendam o autoconhecimento como a chave para uma vida saudável. Mas o que Sócrates queria dizer com autoconhecimento? Certamente não foi no sentido freudiano, o de descobrir seus segredos ocultos. Os gregos definiam o autoconhecimento como conhecer os seus limites pessoais, e entender suas fortalezas e fraquezas. E esse tipo de autoconhecimento vem da experiência, não da introspecção.

O autoconhecimento importa? As carreiras evoluem durante a interação social – toda a consequência nas nossas carreiras é baseada em interações sociais. A vida é uma interação após outra, e após cada interação há um processo de “contabilidade”, no qual as pessoas ganham, ou perdem um pouco de status, ou ganham ou perdem suporte social. Ou seja: status e suporte social são resultados-chave da interação social. As pessoas capazes de acumular status e suporte social têm uma boa carreira; pessoas que não têm capacidade de acumular status e suporte social têm uma carreira pobre.

Pessoas com alto status e sem suporte social podem sofrer uma traição ou pior. As pessoas com suporte social e nenhum status são bem quistas, mas não têm poder. Status, por si só, é o resultado da ambição – trabalho duro, valores aspiracionais, persistência e determinação. No geral, eu não acho que ambição possa ser treinada. Por outro lado, habilidades sociais atraem o suporte social; o autoconhecimento é um componente crucial de habilidade social; e as habilidades sociais podem ser treinadas. Ou seja: o autoconhecimento pode ser treinado.

Como aumentar o autoconhecimento? A distinção entre identidade e reputação é crucial para o entendimento do autoconhecimento. O insight de Sócrates (além de 100 anos de pesquisas) sugere que não há nada para aprender da Introspecção e da autoanálise. Mas entender como você é percebido pelos outros (e entender a sua reputação) é crucial para o sucesso na carreira. As pessoas contratam você, demitem você, promovem você, confiam em você, e lhe emprestam dinheiro com base em como elas percebem você.

Isso significa que o autoconhecimento é outro conhecimento. Precisamos saber como os outros nos percebem, o que estamos fazendo para criar essa percepção, e o que deveríamos fazer para nos certificarmos que essa reputação esteja alinhada aos nossos objetivos de carreira e aspirações. O feedback é a chave do autoconhecimento.

Por fim, qualquer discussão ou feedback deveria incluir o termo “coachabilidade” – que é a capacidade das pessoas aceitarem o coaching. Ser receptivo ao feedback é parte da personalidade e, por definição, haverá diferenças nessa recepção. As pessoas anseiam ouvir o feedback, internalizá-lo, e tentar agir de acordo com ele. Algumas pessoas, porque são defensivas ou arrogantes, ou não estão preocupadas em melhorar a sua performance, resistem totalmente ao feedback. E a maior parte das pessoas está em algum lugar no meio deste caminho.