Por Roberto Santos

O título não está errado e nem pretendo escrever um texto bilíngue, mas a verdade é que nosso idioma pátrio é sedento por incorporar anglicismos e o mais gostoso deles é a hora feliz ou “Happy Hour” — aquele momento de descontração em que colegas de trabalho ou amigos se encontram para colocarem as novidades em dia e exercitarem seu fígado.

Mas será que a hora feliz é a mesma para todo mundo?

Em outros artigos, já abordei, em diferentes contextos, as diferenças individuais que nos tornam tão únicos e os nossos relacionamentos tão complexos. Amamos as diferenças desde que se pareçam com a gente. Aquela dita “química pessoal” que rola entre amigos, casais ou colegas de trabalho, nada mais é do que a percepção consciente ou inconsciente de que compartilhamos alguns valores, motivações e interesses que por sua vez ajudam a explicar porque agimos da forma que fazemos.

Por isso, podemos entender que, até quando se trata de “Happy Hour”, as pessoas são diferentes quanto o seu interesse e motivação por oportunidades de estar com outras pessoas do trabalho, por exemplo, e como tendem a agir nessas situações. Entender essas diferenças e, pelo menos, tentar aceitá-las sem um julgamento precoce ajuda a criação de relacionamentos sustentáveis e positivos.

Há pessoas que têm forte necessidade de estar em constante interação com outras pessoas conhecidas ou estranhas. Elas gostam e geralmente têm facilidade para iniciar relacionamentos e extraem muito de sua motivação dessas situações. Sociáveis, as pessoas de motivação pela afiliação desejam ser aceitas pelos outros e vão procurar constantemente formas de consegui-lo — seja por meio de reuniões formais, seja por encontros casuais no cafezinho ou no “happy” depois do expediente. Alguns podem até adquirir a fama de “arroz de festa” ou, adaptando, “bolacha de chope do happy”.

Por outro lado, há seres absolutamente normais que não necessitam, com a mesma intensidade, estarem em constante interação com os outros. Não significa que não gostem de gente, mas simplesmente preferem ficar sozinhos ou são muito seletivos quanto a fazer reuniões ou atender a convites para festas. Para essas pessoas fica a inquietude de querer evitar uma reputação de antipático, metido ou até alienado. Sim, os outros nos colocam rótulos — justos ou injustos — baseados em nosso “jeitão” e o pior é que podem até influenciar nas relações de trabalho, conforme diz a máxima: “pros amigos tudo, para os inimigos, o procedimento”.

Daí a pergunta: “tenho que ir a todos happy hours do departamento para não me queimar?”

Primeiramente, se é para ser uma hora feliz, temos que estar no encontro com alguma motivação positiva, seja por que o lugar tem um ótimo bolinho de bacalhau, ou por que a nova e maravilhosa estagiária de marketing estará presente, ou por que você quer trocar uma ideia com seu chefe fora do trabalho (pedir aumento jamais!!…).

Enfim, os menos motivados por contatos sociais frequentes e por isso, muito seletivos, podem escolher alguns momentos em que vão se enturmar. Quando não for o caso, eles certamente têm seu estoque de desculpas criativas para se desculpar da recusa ao convite, sempre com expressão de pesar pela oportunidade perdida. Muita consulta médica tardia, doença de tia, visita inesperada do cunhado já foram usados para furar com os companheiros de firma e de boteco.

Outra característica que nos diferencia é o quanto valorizamos e somos motivados pelo prazer das coisas boas da vida — viajar, comer e beber bem e, no ambiente de trabalho, quanto gostamos e promovemos um ambiente informal e descontraído onde se pode divertir e, ao mesmo tempo, trabalhar sério.

Algumas pessoas têm muito dessa motivação chamada de hedonista e podem até exagerar na busca de prazer e diversão, deixando de priorizar adequadamente as demandas do trabalho — “o chefe pediu aquele relatório supercrítico para a primeira hora e estou atrasado, mas não dá para perder aquele happy de comemoração da promoção de meu melhor colega”. Lá vai ele satisfazer sua necessidade hedonista e no dia seguinte deixa o chefe na mão.

Aqueles que têm pouca ou nenhuma motivação desse tipo podem ir para o extremo oposto. Seu lema é o trabalho sempre em primeiro lugar e diversão é para fins de semana com os amigos. Algumas pessoas podem até questionar se devem desenvolver amizades no trabalho. Essas pessoas costumam ser bastante sérias e formais e não são muito encontradas em rodas de cafezinhos ou nos happys da firma. Alguns podem taxá-las de “CDFs” ou chatas, mas são apenas diferentes dos hedonistas de carteirinha, aqueles que têm “banco cativo no barzinho”.

“Podem me chamar de “Caxias” ou CDF mas também vou a happys depois de acabar tudo que tinha a fazer no trabalho. Fico em dúvida sobre como agir, pois não me sinto em meu hábitat natural.”

Sem dúvida, há pessoas muito sociáveis e afiliativas que são mais focadas no trabalho do que na diversão e correm o risco de levar sua motivação primária para o barzinho. Quando um colega desavisado é tomado para Cristo pelo “supercaxias” ele acaba tendo um “sad hour”. As chances de nosso amigo “meu lema é trabalho” ser esquecido na hora de combinarem o próximo encontro acabam crescendo. Por este motivo, melhor essas pessoas não irem ao happy se não conseguem deixar de trabalhar, mas seria muito bom para elas, não há dúvida. Devem pensar que relaxar nesses momentos para “jogar conversa fora” de alguma forma vai reverter em portas mais abertas para quando tiverem uma necessidade no trabalho de seus colegas hedonistas.

Nesses encontros teoricamente felizes das firmas se encontram os dois tipos acima em suas diversas graduações para em algumas horas interagirem social e informalmente. A frequência e a quantidade de colegas que participam desses momentos ajudam a se ter uma ideia de como é o clima da organização. Da mesma forma, essas horas agradáveis e felizes podem reverter positivamente para as relações durante o expediente, o folclore empresarial também pode ser conhecido pelas fofocas oriundas de happys. Então como podemos nos assegurar que ficaremos apenas com a parte boa daquelas horas?

Feedback é o que se fala para a pessoa não o que eu falo dela para outros

Muito comum nesses encontros de firma aqueles que se aproveitam para detonar os ausentes, ancorados por um “espírito de equipe” dos amigos de copo, por meio de rótulos, acusações e julgamentos, sem direito de defesa. É a tradicional fritada em que a pessoa que não foi ao encontro poderá ou não se dar conta quando sentir rejeições e obstáculos da parte de colegas. Além da inquestionável má fé de quem faz acusações, a cumplicidade de seu ouvinte é proporcionalmente lastimável, pois seu silêncio poderá ser interpretado como endosso para engrossar a delegada do colega ausente. Mais saudável, inteligente e honesto seria sugerir que a detonadora fosse aconselhada a dar seu feedback diretamente a quem de direito. O ouvinte pode até perder alguns pontos com o colega de má fé, mas ele preservará sua imparcialidade e sua ética, que valem muito mais no ambiente corporativo no longo prazo.

O risco do álcool por fogo em sua reputação

Ingênuo pensar-se em happys sem o chopinho, a caipirinha, o whisky ou seus derivados, pois o etílico parece estar sempre presente aos encontros felizes pós-expediente e usado com moderação, a biritinha pode ser apenas um fator adicional para estimular a descontração e as risadas enérgicas. No entanto, quando sobra pouco sangue na corrente alcoólica do cidadão, ele pode descobrir apenas no dia seguinte seu vexame em fotos circulando nos celulares do departamento com sua dança da garrafa usando a gravata como bandana. Ou como aconteceu com um alto executivo de uma empresa que aproveitou para criticar de forma preconceituosa algumas características culturais de uma nacionalidade que fazia parte da sociedade da empresa multinacional, o que vazou no dia seguinte, prejudicando a muitos dos presentes daquele happy. Portanto, cada um deve conhecer bem sua tolerância alcoólica para saber a hora de puxar o carro antes que sua reputação seja atropelada.

Mesa de bar não é confessionário

Muitas vezes com o aditivo citado acima, o ambiente aconchegante e amistoso dos happys pode estimular a troca de confidências de trabalho ou particulares, não necessariamente com aquele parceiro de confiança comprovada. No momento em que “abrimos o coração” na mesa de bar para aquele novo colega que parece tão legal, ou resolvemos brincar de jogo da verdade num happy, podemos permitir uma autoexposição que não aconteceria numa sala de reunião da empresa, em que os limites da transparência seriam considerados previamente, bem como os riscos inerentes de fazê-lo. Desguarnecidos de um crivo mais sóbrio e racional pela terceira dose, podemos abrir temas superconfidenciais e pronto, deixaram de sê-lo; dependendo da origem, a quebra de confidencialidade pode ser rastreada com prejuízo ao confidente.

A hora de cada um é escrita em cada interação que se tem com outras pessoas nas quais vai se construindo a reputação determinante de sucessos ou fracassos. Especialmente no mundo corporativo, em que as motivações competitivas tendem a se sobrepor à afiliativas e hedonistas, estarmos atentos à ética e consistência de nossos comportamentos é crucial para não descarrilarmos numa sala de reunião ou num inofensivo happy. Uma hora triste dessas pode criar uma reputação indesejada que um ano poderá não ser suficiente para reparar.

Com Vya Estelar