por Roberto Santos

“O que as outras pessoas falam de nós tende a ter um peso muito maior do que aquilo que falamos sobre nós mesmos.”

Começando com uma reflexão: o que é ponto positivo e negativo?

Existem aspectos de nosso comportamento que são absolutamente bons ou ruins?

Positivo ou bom pra quem?

Negativo pra quem?

As respostas muito simples a estas reflexões soam como falsas, tiradas de dicas de sites de autoajuda, já “manjadas” por entrevistadores espertos.

Quem já não usou aquela velha fórmula – meu positivo é que gosto de pessoas e adoro desafios e meus pontos negativos são o perfeccionismo e “viciado em trabalho” (workaholic em inglês)?

“Então, tenho que ser original? E mais ainda, tenho que ser sincero?!”

Pontos positivos ou negativos pra quem?

Por exemplo, o aspecto que você atribui como negativo – busca da validação e aprovação de outros quando você não está muito seguro — pode ser uma grande qualidade para um chefe que adora subordinados dependentes para que não cometam erros desnecessários e para que se sinta útil. Nesse caso, o ponto negativo pode ser do chefe.

Quer dizer que perfeccionismo e trabalhar demais não são pontos positivos?

Há um conceito de mais de 2.500 anos, validado cientificamente, que trata do “fenômeno que faz com que uma coisa excessiva se transforme em seu contrário.” No mundo corporativo, isso ficou conhecido como “descarriladores de carreira” — aspectos de nossa personalidade que podem ser pontos fortes, mas se exagerados, podem se transformar em riscos para o desempenho, sem nos darmos conta, fazendo-nos vítimas de algo bom praticado em excesso. Ser preocupado com a precisão e qualidade na execução dos trabalhos é um ponto positivo, quando se transforma em perfeccionismo, você está usando um ponto forte em excesso e passa a ser prejudicial.

Vício em trabalho tornou-se um padrão

O vício em trabalho, de certa forma, sem nos darmos conta, transformou-se numa realidade, graças à tecnologia de smartphones, redes na nuvem, e-mails, what’s ups, skypes etc. A tecnologia que nos libertou para não estarmos acorrentados a um computador na mesa do escritório, nos escravizou, pois agora as empresas e seus chefes esperam que estejamos a postos 24 horas por dia e 7 dias por semana, para respondermos a suas “consultas” ou “informaçãozinha rápida”. De acordo com uma pesquisa recente, isso é esperado por 65% dos chefes e sabido pela mesma quantidade de trabalhadores.

Então quer dizer que ser “viciado em trabalho” já é o padrão e não dá mais pra usar como ponto positivo?

Mais ou menos isso, mas há um outro lado. O profissional que trabalha 12 horas por dia no escritório e ainda complementa seus trabalhos em casa no final de semana está correndo dois riscos: quando se esgotar por fadiga emocional e física e trabalhar em doses normais, já será mal avaliado – “fulano está desmotivado…já não é mais o mesmo…” e “fulano deve ser muito improdutivo, pois sempre tem que levar trabalho pra casa – ele não sabe administrar seu tempo”.

Como vemos, fórmulas prontas de pontos negativos, como dizia um famoso presidente do Corinthians Paulista, são “facas de dois legumes”.

Autoconhecimento conduz à reflexão para a resposta mais adequada

Nada substitui, primeiro, a pesquisa interna e externa do autoconhecimento para saber o que você tem de competências positivas que podem contribuir para a empresa que estava entrevistando você e, segundo, a sinceridade sobre suas características – considerando que seu objetivo não é apenas “passar na entrevista”, mas permanecer no emprego e ter uma carreira na empresa, e não ser “pego na mentira de pernas curtas”. Entre outras palavras, o que falar na entrevista depende do que você quer ver refletido na reputação a ser projetada em suas interações.

Outro elemento atual e impactante da avaliação que fazem dos candidatos a processos seletivos é decorrente da explosão sem precedentes das mídias sociais – Facebooks, Twitters e Linked-ins”, é a crescente transparência e até “invasão (autorizada) de nossa privacidade”. Gradual, mas rapidamente, somos avaliados não mais apenas por uma ou mais entrevistas na empresa e/ou por avaliações de personalidade ou ainda checagem de referências daquelas: “Não há nada que o desabone”. Nossa carreira, nossa vida, nossos relacionamentos, nossas opiniões e pontos de vista sobre tudo e todos são vasculhados e, para o bem e para o mal, formam nossa reputação que influenciará a decisão sobre nossa adequação à vaga e empresa que sonhamos.

E o que isso tem a ver com a pergunta: o que eu respondo sobre meus pontos positivos e negativos numa entrevista?

O que se fala na entrevista já não é a única, e pode ser a menos importante, para nossa avaliação, pois esta fala pode ser fabricada. Isso pode também ser feito com nossos perfis daqueles sites, mas a chance de furos e inconsistências pode ser fatal. O que as outras pessoas falam de nós tende a ter um peso muito maior do que aquilo que falamos sobre nós mesmos.

A reflexão sobre a sinceridade deve considerar que todos temos imperfeições, inclusive a pessoa que irá entrevistá-la e tentar omitir, esconder, disfarçar e evitar responder, pode refletir numa reputação de mentirosa ou arrogância e não de uma candidata ideal.

Boa sorte sincera em sua próxima entrevista.

Com Vya Estelar