Indivíduos que se sentem distraídos e sofrem de sobrecarga de informação já ouviram mais de uma vez que precisam se concentrar e parar de realizar tantos pensamentos de uma só vez. Para lidar com o volume de informações que recebe diariamente, algumas pessoas tentam tirar períodos sabáticos longe da mídia social ou retiros espirituais. Outros tentam ioga e meditação. A suposição, de qualquer modo, é que uma mente inquieta é uma mente perturbada, e a não ser que as distrações possam ser reduzidas e realmente direcionadas, nos tornaremos miseráveis. Mas isso não pode ser verdade, e mesmo que fosse, é possível que não seja sequer algo a se lamentar.

A distração está aqui para ficar

Para muitos de nós, nossas vidas sociais e profissionais dependem de passar muito tempo na frente de uma tela, processando grandes quantidades de informação em um tempo muito curto. Inevitavelmente, isto significa racionar nossa atenção e economizar nossos pensamentos. Nós podemos condenar os males em tentar ser multitarefa o tanto que quisermos, mas o fato é que é assim que funciona a norma cognitiva. Nossas mentes estão, simultaneamente, em todos os lugares e em lugar nenhum, presente e ausente, ligada e desligada.

Além do mais, os nossos padrões típicos de concentração são ditados por nossas personalidades. Alguns de nós preferem dedicar todos os nossos recursos mentais para uma única tarefa em um determinado momento, enquanto outros são inclinados a ter pensamentos e ideias mais dispersos, saltando de um para o outro e vice-versa. Tentar mudar isso significa ir contra as nossas naturezas individuais – é demorado e desgastante, e as chances de sucesso a longo prazo são geralmente baixas.

Por outro lado, os cientistas estão agora descobrindo algumas vantagens importantes em sermos mais desfocados mentalmente. Na verdade, divagação mental – a tendência a ter pensamentos alheios a sua tarefa atual – é exatamente o oposto da concentração, estando totalmente imerso em uma situação e sendo absorvido por ela.

No entanto, um modo mental é potencialmente tão benéfico quanto o outro. Estudos relatam que a maioria das pessoas gasta tanto tempo divagando quanto atento ao que está realmente acontecendo. Se a divagação mental é realmente uma característica fundamental do pensamento humano, é difícil chamá-la de “boa” ou “ruim”.

A divagação mental é o subproduto de duas capacidades mentais importantes: a capacidade de desengatar da percepção (ignorando algo que está presente), e a capacidade de se envolver em uma “meta-consciência” (focando em nossos próprios pensamentos). As pessoas que exercem essas duas capacidades tendem a ter uma mente mais inquieta, que está ligada à criatividade.

Vagando em direção à criatividade

Indivíduos que divagam não são normalmente tão bons em filtrar informações irrelevantes de seus arredores – uma habilidade conhecida como “inibição latente”. Mas isso é realmente uma vantagem quando se trata de gerar ideias originais e inovadoras. A fim de pensar fora da caixa, você tem que ser capaz de considerar pensamentos e conceitos incomuns, não suprimi-los. Afinal, todos os ingredientes da criatividade são geralmente errados e absurdos, mas o pensamento lógico é raramente um portal criativo.

O pensamento lógico demanda um “pensamento convergente”, que procura uma única resposta certa para um problema bem definido, enquanto a criatividade exige um “pensamento divergente”, que busca muitas respostas possíveis para um problema mal definido. A divagação mental tem sido associada a níveis mais elevados de pensamento divergente e abertura à experiência, duas características comuns de pessoas extremamente criativas.

Enquanto algumas pessoas possam ser mais inclinadas a divagação mental do que outras, o hábito parece desempenhar um papel no pensamento criativo, independentemente de nossas personalidades. “Atividades de incubação” são coisas que fazemos que afastam a nossa concentração de um problema por um determinado período de tempo, a fim de ativar pensamentos inconscientes que vão nos ajudar a encontrar a solução.

As tentativas deliberadas para reprimir certos pensamentos costumam sair pela culatra. Quando você se esforça para não pensar em alguma coisa, o pensamento costuma pairar em sua mente e fica ainda mais forte. Em outras palavras – e paradoxalmente – quanto menos você resistir a um pensamento, mais livre você vai ser a partir dele. Ceder à divagação mental pode nos ajudar a romper esse ciclo.