O coaching baseado (apenas) em pontos fortes é ruim para a carreira

Na última década, muitos profissionais ficaram entusiasmados com a ideia de realizar intervenções para promover a mudança de comportamento se concentrando exclusivamente em realçar os seus pontos fortes, ao invés de também abordar as suas fraquezas. Isto é particularmente verdade em programas de desenvolvimento de liderança. A palavra “fraqueza” tornou-se um termo politicamente incorreto nos círculos de RH tradicionais, onde as pessoas são descritas pelos seus pontos fortes – mas não pelas fraquezas. Algumas empresas estão até planejando se desfazer do feedback negativo.

Apesar de não existirem razões para acreditar que o fascínio com a valorização dos pontos fortes vá desaparecer em breve, as organizações, e pessoas, estariam melhores se isso acontecesse. Há algumas razões para ser cético em relação a uma abordagem de desenvolvimento de liderança que se concentra apenas nos pontos fortes:

1) Não há nenhuma evidência científica de que o coaching baseado em pontos fortes funciona. Apesar da crença popular, a abordagem baseada nos pontos fortes para a liderança não é fundamentada na ciência. Não há estudo científico para apoiar a ideia de que as intervenções de desenvolvimento são mais bem sucedidas se ignorarem as falhas das pessoas ou em omitir qualquer feedback negativo.

Obviamente, a ausência de evidência não significa necessariamente evidência de ausência. No entanto, as principais evidências da abordagem baseada nos pontos fortes são incongruentes com os resultados acadêmicos bem estabelecidos. Por exemplo, evidências de meta-análise mostram que o feedback negativo realmente melhora o desempenho. Além disso, líderes de alto desempenho tendem a melhorar a partir do desenvolvimento de novos pontos fortes, e não apenas melhorar aqueles já conhecidos.

2) Ele pode dar às pessoas uma falsa sensação de competência. Abordagens baseadas em pontos fortes ajudam as pessoas a identificá-los (por exemplo, competências importantes, talentos ou habilidades na carreira). Esse é um objetivo nobre, porque as pessoas geralmente não sabem de suas habilidades e são incapazes de avaliar seu próprio desempenho.

No entanto, essa abordagem tenta fazer isso pela comparação de fortalezas da própria pessoa, ao invés de comparar com um grupo normativo ou com base em indicadores da população.

Qualquer tentativa séria para medir o talento deve levar em conta a “posição atual do indivíduo” sobre as dimensões-chave de talento. O feedback que não é normativo falha em fazer isso, portanto, não é recomendado utilizá-lo não só por sua falta de precisão, mas também pela falta de ética. Equivale a dizer que todo mundo é bom à sua própria maneira. Esse tipo de feedback reforça a ilusão de capacidade mesmo para os indivíduos que não possuem a habilidade propriamente dita.

As organizações devem examinar as competências das pessoas dentro do contexto da empresa. Ou seja, as qualidades de um indivíduo devem ser valorizadas apenas se forem alinhadas com o seu cargo e com os objetivos da organização. Coaching baseado em pontos fortes se concentra muito nas qualidades de um indivíduo fora de um contexto.

3) O coaching baseado em pontos fortes leva a desperdício de recursos em profissionais sem talento. Essa abordagem argumenta que cada empregado merece ser desenvolvido, porque todo mundo possui seus talentos individuais. É fácil entender o apelo popular e simpático dessa ideia, particularmente entre os especialistas que vendem as intervenções de desenvolvimento para todo mundo.

No entanto, uma vez que os melhores profissionais são, muitas vezes, mais valiosos do que outros empregados, as empresas vão perceber que o ROI de programas de treinamento será maior se for direcionado aos indivíduos que apresentam alto desempenho e elevado potencial. Isso significa que a empresa deve concentrar os programas de desenvolvimento em 20% das pessoas que são responsáveis ​​por 80% da receita, lucros ou produtividade; e não gastar com todos os funcionários da organização.

4) Pontos fortes em excesso se tornam prejudiciais. Tudo na vida é melhor se for feito com moderação. O paradigma científico para essa ideia diz que tudo que é muito bom acaba se tornando prejudicial se acontecer ​​em excesso. Nesse sentido, indivíduos que são extremamente conscientes e atenciosos podem rapidamente se transformar em perfeccionistas e obsessivos. A confiança se torna em arrogância. Ambição se transforma em cobiça. E imaginação em excentricidade.

Com HBR