Equidade: utopia ou ideal?

Por Roberto Santos

Eqüidade: utopia ou ideal?

O prefixo latim desta palavra, ‘aequi’ significa igual, logo estamos falando aqui de igualdade. Já em equilíbrio, nos referimos a peso igual (libra = balança). E assim como estas, outras palavras nascem com uma missão ingrata, buscar a representação de algo difícil de se obter – por exemplo, a igualdade, fraternidade e liberdade do hino da Revolução Francesa, especialmente quando se pensa no mundo corporativo.

As empresas buscam estabelecer políticas, normas, procedimentos que garantam a eqüidade de suas práticas de remuneração, reconhecimento, avaliação, etc. Porém, essas práticas e ferramentas são administradas por seres humanos, competitivos por natureza. Estes seres vêm às organizações com suas necessidades atávicas de serem aceitos, se destacarem e encontrarem um propósito para suas vidas e, nesta busca, geralmente, prevalece a disputa pela atenção, pelo melhor cargo, pelo maior aumento de salário, mesmo que para isso tenham que violar, sutilmente, alguns valores éticos de conduta.

No fundo, mesmo nos outros campos de nossas vidas, estamos constantemente avaliando a eqüidade entre o que oferecemos e o que recebemos. A namorada que espera que seu par se lembre do aniversário de namoro para topar um programa mais emocionante, o contribuinte que não cansa de esperar serviços decentes de seus governantes, o consumidor que espera uma qualidade compatível com o preço absurdo que está pagando pelos produtos que adquire, enfim sempre estamos buscando uma relação de igualdade entre o que oferecemos e o que esperamos em troca. Amor incondicional só mesmo o dos melhores amigos do Homem e da Mulher.

A diferença entre uma Utopia e um Ideal talvez seja o nível de persistência que apliquemos a nossas metas. Com a eqüidade, passa-se o mesmo, desistir desse valor maior é abrir mão de muito que chamamos de mundo civilizado, porém acreditar ingenuamente que ela estará sempre presente nas relações entre as pessoas é uma frustração potencial.

O equilíbrio entre a utopia e o ideal nunca poderá ser medido objetivamente, ou seja, o que é justo e eqüitativo para mim pode não sê-lo para vocês, e vice-versa. Neste campo estamos lidando com aspectos muito subjetivos e situacionais. Quando estamos trabalhando numa empresa que é “tudo de bom” – chefe, salário, ambiente de trabalho, benefícios, etc, nossa tendência de aceitar algumas desigualdades tende a ser maior. Já quando tudo na empresa se assemelha ao Inferno de Dante, então qualquer olhada ou sorrisinho de um chefe para o colega do lado e já achamos que existe um favoritismo descarado na empresa.

Nós sempre vamos procurar ordenar, arquivar e classificar as coisas para nossa mente funcionar mais facilmente, daí é que se criam preconceitos e se alimentam paradigmas dos quais, depois de algum tempo, nem se sabe mais a origem. Daí é preciso estarmos atentos às conclusões fáceis, os rótulos instantâneos que atribuímos aos outros e às empresas.

A eqüidade é uma medida de como sentimos o equilíbrio “ecológico” entre a energia que geramos para o ambiente e aquela que recebemos para realimentar o motor da motivação. A maioria de nós já viveu períodos em alguma organização em que o trabalho não causava cansaço, por mais árduo e contínuo que fosse. A disposição para trabalhar por uma meta era tão intensa que mal dava tempo de se preocupar com o salário do vizinho de baia ou o primo que trabalha no concorrente, e muito menos mandar currículos para concorrer a outras vagas. Infelizmente, alguns e até muitos de nós, também já vivemos períodos em que as horas se arrastavam no relógio e a sexta-feira parecia nunca chegar na semana.

Nestas situações, o pensamento prevalente é como ganho pouco para o tanto que eu faço… A mesmíssima carga de trabalho parecerá desumana para uns e mamão com açúcar para outros, garantidas as condições motivacionais adequadas.

O presidente mundial de uma grande multinacional em que trabalhei, alguém que conheci muito pouco pessoalmente, mas que merecia grande admiração de minha parte, disse uma vez: “As pessoas não esperam nada demais. Elas só esperam que seu chefe e a empresa se preocupem com elas genuinamente.” Uma fórmula tão simples e tão verdadeira e por isso, tão sábia.

Por estes motivos, a eqüidade não é medida em pesquisas, ou demonstrada em planilhas e tabelas. Ela é sentida no coração das pessoas, pela forma como se sentem respeitadas e valorizadas por sua contribuição. Ela é avaliada pela mente das pessoas quando recebem um feedback honesto e bem intencionado visando à melhoria de seu desempenho. Eqüidade, como na gangorra, para ser divertida depende dos dois lados equilibrarem suas forças ao dar e receber.