Decepcionar ou impressionar no processo seletivo?

Por Roberto Santos

Existem dezenas de ferramentas de recrutamento on-line como o Linkedin e os robôs associados aos sites das empresas lá naquela página do “venha trabalhar conosco”. O cuidado com nossa imagem profissional já deve começar nesta fase do processo seletivo das empresas.

O momento da verdade chega quando você é chamado para a esperada entrevista na empresa onde você encontra o sonho da vaga esperada para a carreira sonhada na empresa paradisíaca. Você chegou lá! Passou por filtros de algoritmos complexos para excluir os candidatos que não preenchiam os requisitos mais básicos: formação superior, local de residência, anos de experiência e etc., e aqueles que o selecionador acredita na sinceridade do candidato.

Dentre os comportamentos e atitudes que mais me impressionaram em entrevistas de processos seletivos e de assessments mais complexos com a mesma finalidade, destacam-se:

 1 – Pesquisar previamente sobre a empresa, indústria, mercado e cenário

O candidato que faz uma pesquisa anterior sobre a oportunidade em questão revela não apenas seu interesse como visão do mercado e indústria em que a empresa empregadora se encontra. Caso ele tenha experiências que se correlacionam com o conteúdo de suas pesquisas, terá um trunfo interessante para usar no momento adequado da entrevista. Além disso, esta pesquisa servirá de base para o candidato ponderar o grau de interesse na oportunidade presente.

 2 – Fazer perguntas interessadas e interessantes sobre a oportunidade

Como corolário do primeiro item, preparar-se com perguntas sobre os pontos pesquisados e principalmente sobre a vaga em aberto não é um indicador de grau de “bisbilhotice” mas de inteligência social e interesse estratégico. A pessoa encarregada pelo processo seletivo, se for um bom representante da empresa, e vir em você um talento almejado, apreciará a oportunidade de fornecer-lhe todas as informações para motivá-loa vir para seu time. Por mais que você esteja desesperado pela vaga, fazer as perguntas certas na hora certa, ampliam as chances de ambas as partes façam a escolha correta.

 3- Ser objetivo com exemplos, de preferência com dados, para fundamentar as qualidades que diz ter

Objetividade e coerência são qualidades positivas que impressionam selecionadores, muitas vezes, com menos tempo do que entrevistas a fazer, Assim, impressiona positivamente aquele candidato que reflete previamente sobre as perguntas mais prováveis que serão feitas e relacionando-as com os dados de seu CV tenham uma descrição clara, concisa e objetiva sobre a experiência no que apoia a adequação à vaga.

Num mercado de trabalho competitivo quando se trata daquelas oportunidades mais sonhadas, e em que poucas pessoas tratam estrategicamente de sua preparação para a entrevista, não decepcionar o selecionador com atitudes e comportamentos (ou ausência deles) já será motivo de impressioná-lo, por comparação. Por isso, segue uma lista do que mais decepciona selecionadores:

Antes de chegar à entrevista:

 1 – Erros de português no CV (e depois na entrevista) podem ser fatais

Para o CV você ainda pode (e deve) pedir para que um bom revisor de português faça uma correção, mas para a entrevista, só estudando o que perdeu em seus vários anos de escola, porque era uma matéria chata. E, por favor, gerundismo, jamais! Se você entrar naquela de achar que vai estar arrasando quando estiver enchendo seu discurso de gerúndios, saiba que poderá estar mesmo é sendo descartado do processo.

 2 – CV não é mensagem de texto

Uma recomendação complementar à anterior para escrever os CVs é que convenções que até podem ser aceitas para mensagens de texto (SMS e “Zap-Zaps”), que vc escreve para os amigos, aki não serão muito bem vindas ou compreendidas por qq pessoa mm que inteligentes podem ser menos experientes nessa linguagem telegráfica. Lembre-se nem todos interlocutores que você vai encontrar são da Geração Y e falam o mesmo idioma.

3 – Mandar CV pelo e-mail da empresa

Pode lhe parecer um detalhe, mas apesar de nos apoderarmos de nossa identidade corporativa quando estamos empregados por uma empresa, nosso endereço de e-mail é “propriedade” dela. Por este motivo, melhor sempre usar seu endereço de e-mail pessoal para corresponder-se com a empresa almejada como empregadora.

 4 – Apresentação conta — visual e olfativa

Nada pode ser mais chato do que passar anos perdendo tempo e saúde emocional em entrevistas porque ninguém tem a coragem de dizer algumas verdades sobre sua apresentação pessoal. Pode ser aquela camisa social que você adora e que sempre lhe deu sorte, mas que está encardida e puída, ou aquela saia curtinha e/ou decote, e a maquiagem caprichada da última balada que fazem sucesso com sua turma, podem chamar a atenção do entrevistador para os aspectos errados do profissional que você está querendo apresentar – são distrações visuais que desvirtuam o objetivo da entrevista. Pior, aquelas dificuldades hormonais que fazem com que o estresse se transforme em odores para você imperceptíveis mas letais a selecionadores sensíveis ou seu nariz entupido que faz você se encharcar daquele perfume delicioso e fazer com que o selecionador não veja a hora do fim da entrevista ou escancare a janela em pleno inverno. Nenhum remédio supera a vantagem de ter amigos de bom gosto e sinceros para lhe dizer as verdades e sugestões do bem senso sensorial. Por outro lado, a pior reação aos sinais e feedbacks é a reação Gabriela – eu sou assim mesmo.

 5 – Chegar atrasado para entrevista

Independente de sua origem e seu destino no dia da entrevista, a pontualidade é um dado objetivo que o relógio deixa muito claro, ainda que tenhamos que estar duplamente atentos quando entrevistas virtuais devem acontecer entre diferentes zonas de tempo – não custa nada se certificar: é 3 da tarde pelo seu horário ou pelo meu? Independente de se você mora numa cidade pacata e conhecida de 12 mil ou uma megalópole desconhecida de 12 milhões, contar com o previsível e considerar os imprevistos são atitudes previdentes para não queimar o filme com um atraso de 5 ou 50 minutos. Chegar 50 minutos adiantado e dar uma volta nas redondezas é preferível do que o atraso.

Durante a entrevista, candidatos podem decepcionar de várias maneiras:

 1 – Mentir sobre suas credenciais

A atitude que se quer adotar na vida, incluindo os processos seletivos, já se pratica (ou não) na preparação do CV quando se mente sobre credencias, omite-se passagens muito curtas por alguma empresa ou por um curso que nunca foi concluído. Na entrevista, pode-se mentir sobre causas de desligamento ou sobre motivos de troca de emprego e, bastante comum, assumir a autoria de projetos de outras pessoas, etc. Dependendo da autoconfiança e capacidade carismática e artística de cada um, pode-se encantar o selecionador na entrevista. Porém, em processos envolvendo mais entrevistadores, a consistência pesará mais, pois seu estilo melodramático pode não agradar a todos. Nada mais confortável do que a autenticidade e a sinceridade que poderá transcender o processo seletivo para uma relação de emprego e uma reputação de respeito.

 2 – Não olhar no olho

Pode ser timidez ou introversão respeitáveis como características individuais, porém no processo seletivo, mesmo que o cargo-alvo não envolva popularidade em festas e capacidade para falar para 500 pessoas, desviar o olhar dos olhos dos interlocutores em uma situação em que está se construindo e avaliando a capacidade de confiança mútua, esta incapacidade pode ser destrutiva para o processo seletivo. Assim, treinar-se para isso pode ser sua prioridade.

 3 – Manter celular ligado

Por mais que nos dias de hoje 99% da população tem um celular consigo em todos momentos, quase que por 24 horas, e ainda que seja um hábito ou vício para muitas pessoas, nada se justifica ir a qualquer reunião formal – entrevista de emprego no topo da lista – e deixar o celular ligado. Depois que aquele funk “wesleyano” começa a tocar alto no meio da entrevista, revelando seu gosto musical, pedir desculpas por ter esquecido de desligar já é tarde para uns pontos perdidos quanto a atitudes de respeito em ambientes formais. Deixar no modo vibração é menos mal, desde que esta não balance a mesa do entrevistador ou que bagunce sua concentração pois pode se distrair pensando que é aquela paquera cuja ligação você espera ansioso. Se você estiver mais ansioso pelo emprego, desligue tudo e concentre-se nesta missão – causar a melhor impressão de quem você é e porquê, é a melhor alternativa para a vaga em questão.

 4 – Ficar olhando o relógio ou celular

OK, você decidiu deixar o celular ligado porque está esperando uma ligação de sua esposa que está indo para a sala de parto ter seu primeiro filho e não deu para remarcar a entrevista. Deixar isso bem claro no início da entrevista pode abrir para a exceção do selecionador. Porém, durante aqueles 60’ vigiar o celular e o relógio a cada minuto pode ser decepcionante e até irritante para seu interlocutor. Sempre preferível remarcar o encontro do que parecer que está atento, mas está com a atenção dividida por dois ou mais elementos.

 5 – Falar mal de ex-chefes ou colegas

As motivações podem ser muito diferentes — revolta, frustração ou vingança – os objetivos podem ser o de justificar sua urgência em deixar a empresa ou justificar a saída, mas os riscos e resultados tendem a ser os mesmos e, via de regra, o tiro sai pela culatra. Neste mundo pequeno, as pessoas que a gente menos espera, podem ser os melhores amigos de nossos piores inimigos. Dependendo do grau de amizade entre eles e sua relação com a empresa, podem ser explosivos para sua carreira. Todavia, independente dessa coincidência que pode-se acreditar uma infelicidade rara, não incomum é a reação do entrevistador concluir, geralmente com razão, que você hoje fala mal do ex-chefe e amanhã dele e dos futuros chefes e colegas na nova empresa. Ser positivo ou neutro sobre todos ex-colegas e chefes é sempre o caminho mais seguro, lembrando – você não está em um inquérito de delação premiada, você está em uma relação em que quer avaliar junto com o interlocutor se você é a melhor opção como empregado dessa empresa e esta, a melhor opção para seu novo passo de carreira. Guarde as comparações de pessoas da outra empresa para você ou para as pessoas próximas e confiáveis.

 6 – Falar demais, falar de menos…

Dois dos maiores desafios para os entrevistadores talvez sejam os candidatos de extremos na sua expressão verbal – os matracas que falam demais e aqueles que precisamos de saca-rolhas para se extrair cada sentença. Para os candidatos, o desafio é saber como ficar no caminho do meio – nem falar demais e nem de menos. Este desafio é proporcionalmente difícil para os extrovertidos ouvirem mais do que falarem e vice-versa para os introvertidos. Portanto, uma boa dose de autoconhecimento sobre onde você se encontra nesse contínuo – introversão – extroversão – é o melhor começo. Para os mais “quietões”, pensar antecipadamente o que é fundamental que se fale durante a entrevista e buscar o momento de falar, e, para os falantes, limpar bem os canais auditivos e reduzir o som de seu espetáculo diário para ouvir as perguntas e respondê-las objetivamente, deixando ao interlocutor pedir mais detalhes.

 7 – Falar pra dentro ou gritando…

Não necessariamente vinculados às características anteriores, os introvertidos, especialmente os tímidos, tendem a dar a impressão de que falam para dentro e os extrovertidos, quando se extravasam como melodramáticos, podem aumentar seu volume para uma apresentação no Maracanã. De novo, os melhores amigos são a menor fonte de feedback para ajustar o volume para que sejamos ouvidos, sem a monotonia soporífera ou a oratória de políticos de novela. Ajustar o tom de voz às expressões faciais e comunicação não verbal podem fazer a diferença de quem se quer entrevistar ou terminar o papo rapidinho.

 8 – Perguntar sobre remuneração… especialmente no começo da entrevista

Dependendo do entrevistador, perguntar sobre remuneração durante, e especialmente no início da entrevista, pode ser decepcionante, pois revela que este fator tem peso desproporcional a todos demais aspectos intrínsecos ao cargo, empresa e desafio em questão. Entende-se contudo que, quando se está empregado e ganhando muito bem e a remuneração é um fator crítico, esta questão seja levantada antes da entrevista. Neste contato para agendar a entrevista, pode-se dar uma ideia do parâmetro atual de remuneração total (salário, bônus, benefícios, etc) para que a entrevista seja agendada desde que a proposta seja superior à condição atual. Nesse caso, se a entrevista é agendada e o processo é iniciado, há um entendimento tácito entre as partes do patamar de remuneração e pode-se focar durante todo o processo nos inúmeros outros aspectos da consideração de seleção para um novo emprego e deixar que o tema monetário seja traduzido no devido tempo pelo entrevistador. Se este trouxer qualquer proposta abaixo dos parâmetros colocados, além de antiprofissional e incompetente, ele dará o direito de o candidato deixar o processo imediatamente.

Depois da entrevista:

  1. Interesse ou ansiedade, eis a questão

Já escrevi um texto sobre a relatividade do tempo para quem está esperando uma resposta de um emprego e quem está cuidando de mais dez processos seletivos. O tempo do relógio é o mesmo, mas psicologicamente, ele é vivido de maneira muito diferente. Daí, muito comum receber consultas sobre quando é o momento de cobrar uma resposta – queremos mostrar interesse mas não parecer desesperadamente ansiosos. Depois da entrevista, pode ser interessante escrever um e-mail para o entrevistador completando alguma informação pendente e usando um tom simpático, sincero, agradável sem ser bajulador – como nem todos fazem, isso pode ajudar a marcar a memória de forma diferencial. Quanto ao acompanhamento, a melhor estratégia costuma ser pedir ao final da entrevista uma estimativa de tempo para os próximos passos e confirmar uma autorização para um contato – por e-mail ou telefone – em alguma data combinada. Nesta oportunidade, depois de saber o status, fazer a mesma pergunta.

  1. Comprometer-se com uma proposta e desistir…depois de fazer leilão

A relação de empregado x empregador, entrevistador x candidato é, até certo ponto, análoga às relações de mercado de oferta e demanda. Nossa “mercadoria” isto é, nosso “pacote de pessoa e CV” pode estar em alta no mercado com uma forte demanda hoje e amanhã, a oferta transborda no Linked-in. Em outras palavras, sujeitos que somos às variações do mercado, precisamos cuidar do nosso valor nesse mercado e da impressão que passamos aos avaliadores desse mercado – os selecionadores. Seremos totalmente solícitos e pegajosos com os “head-hunters” quando estamos desesperados por um emprego e esnobá-los quando estamos por cima, mais cedo ou mais tarde, poderá trazer algum prejuízo provocado por esta mão não invisível do mercado. Nesse sentido, investir horas e horas suas e dos diversos personagens envolvidos em seu processo seletivo para depois desistir costuma ser um conhecido chamuscador de candidatos que veem no processo uma oportunidade de leilão de valores ou de seu ego junto ao empregador atual.

Como nota final, precisamos manter nossa reputação profissional sob constante atualização e revisão por reflexões pessoais e atenção a feedbacks que recebemos. O valor de nossa reputação implica em sucesso ou fracasso no longo prazo e ele estará sendo continuamente avaliado por nossas atitudes e comportamentos. O fio de prumo de cada um será seu conjunto de valores e sua trena será sua meta e objetivos para o futuro.