A curiosidade é mais importante que a inteligência

Por Tomas Chamorro-Premuzic

Há um consenso geral de que estamos vivendo a “era da complexidade”, o que significa que nunca o mundo foi tão intrincado. Essa ideia é baseada no rápido avanço das mudanças tecnológicas, e na vasta quantidade de informações que geramos – considere que filósofos como Leibniz (século 17) e Diderot (século 18) já reclamavam da quantidade de informação aquela época. A “terrível quantidade de livros” a que eles se referiam naquele momento representava somente uma pequena porção do que conhecemos hoje, o que será também insignificante para as futuras gerações.

Em qualquer evento, a relativa complexidade das diferentes eras tinha pouca implicação para o indivíduo que estavam simplesmente lutando para sobreviver todos os dias. Então, talvez a pergunta correta não seja se essa era é mais complexa, mas por que algumas pessoas são mais aptas em gerir a complexidade? Ainda que a complexidade é dependente do contexto, é também determinada pela disposição do indivíduo. Em particular, há três qualidades psicológicas chave que melhoram a nossa habilidade de gerenciar a complexidade:

  1. QI: como muitas pessoas sabem, o QI se refere ao quociente intelectual, e à habilidade mental. O que poucas pessoas sabem, ou aceitam, é que o QI afeta várias coisas, como a performance no trabalho e o sucesso na carreira. A razão principal é que maiores níveis de QI permitem às pessoas aprender e a resolver problemas de forma rápida. Os testes de QI parecem abstratos, matemáticos, e desconectados dos problemas do dia a dia, mas ainda são eles são ferramentas poderosas para prever nossa habilidade de gerenciar a complexidade. De fato, O QI é um forte indicativo da performance em tarefas complexas.

Ambientes complexos são ricos em informação, o que sobrecarrega o sistema cognitivo e demanda mais processamento cerebral ou pensamento; não podemos navegar por esse ambiente no pilot automático. O QI é a medida do processamento  cerebral, como os megabytes ou a velocidade de processamento são uma medida das operações que um computador pode realizar, e a qual velocidade. Obviamente, há uma correlação entre o QI e a memória, nossa capacidade mental de lidar com múltiplos pedaços de informação de uma só vez. Tente memorizar um número de telefone enquanto pergunta a alguém sobre o caminho e tenta relembrar sua lista de compras, e você terá uma boa medida do seu QI.

2) EQ: o EQ mede o quociente de inteligência emocional, e trata da nossa habilidade em perceber, controlar e expressar emoções. O EQ está relacionado ao gerenciamento da complexidade de três maneiras diferentes. Primeiro, pessoas com alto EQ são menos suscetíveis ao stress e à ansiedade. Situações complexas demandam recursos, e induzem à pressão e ao stress, a inteligência emocional atua como um “buffer”, ou seja, uma área de armazenamento temporária. Segundo, a inteligência emocional é um atributo-chave para as habilidades interpessoais, o que significa que pessoas com alto nível de inteligência emocional conseguem navegar melhor pelas complexas políticas organizacionais, e avançar na carreira. Terceiro, pessoas com maior inteligência emocional tendem a ser mais empreendedoras, então são mais proativas em explorar oportunidades, assumir riscos e tornar ideias criativas em inovação. Tudo isso faz com que a inteligência emcional seja uma qualidade importante para adaptar-se ao incerto, imprevisível e complexo.

3) CQ: o CQ diz respeito ao quociente de curiosidade, e diz respeito a ter uma mente sempre disposta a aprender. Pessoas com alto grau de CQ são mais inquisitivas e abertas a novas experiências. Consideram a novidade como algo excitante e logo estão entediadas. Tendem a gerar muitas ideias originais, e não são conformistas. O CQ ainda não foi profundamente estudado como o EQ e o QI, mas há evidências de que também é importante ao gerenciar a complexidade. Primeiro, pessoas com um alto CQ são geralmente mais tolerantes à ambiguidade. Esse estilo de pensamento sofisticado define a essência da complexidade. Segundo, o CQ leva a altos níveis de investimento intelectual e conhecimento ao longo do tempo, especialmente em campos formais como educação, ciência e arte. Conhecimento e expersite, assim como a experiência, traduzem situações complexas em familiares, então o CQ é a ferramenta mais importante para produzir soluções simples aos problemas complexos.