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Como lidar com o futuro de sua carreira

por Roberto Santos

Por que será tão comum as pessoas procurarem por respostas sobre seu futuro, indagando a videntes, astrólogos, numerólogos, oráculos ou gurus de primeira viagem? Mesmo aqueles que não se anunciam como tal podem ser feitos adivinhos por pessoas sedentas de respostas sobre o irrespondível – o futuro.

Assim tenho constatado respondendo a consultas de leitores, pelo menos aquelas que eu consiga acrescentar alguma contribuição realista e estimulante à reflexão. Dentre as inúmeras consultas recebidas, muitas se limitam a fornecer mínimos dados sobre a situação e a pessoa (como data de nascimento) e requisitar uma luz ao fim do túnel sobre o futuro: terei sucesso no processo de seleção que estou participando? Essa seria a melhor data para abrir uma papelaria? Vou ser promovida?

Minhas respostas a este tipo de consulta têm variado bastante: não sou vidente ou astrólogo, você escreveu para o consultor errado, você pode conseguir aquilo que se esforçar ou, repetindo o refrão de Bob Dylan, a resposta, meu amigo, está soprando no vento, ou ainda, outra carregada de indignação: não tenho a mínima ideia.

Importante diferenciar o tipo de questionamento descrito acima daquele que descreve uma situação, os personagens, os antecedentes e solicitam uma análise probabilística ou uma sugestão baseada em campos de conhecimento científico como a Ciência da Personalidade Humana.

As consultas a oráculos da Internet referem-se à expectativa de uma resposta baseada na necessidade de confirmação mágica de um desejo ou da insegurança profunda que anseia por qualquer reação que, como várias outras, não resolvem as questões levantadas.

Consideremos a indagação sobre a obtenção de um emprego ao qual se está concorrendo. O pretenso vidente que responde negativamente a tal dúvida conseguirá fazer com que o(a) candidato(a) desista de sua busca daquela oportunidade? E se a resposta for animadoramente positiva, o pleiteante ao posto dos sonhos, se acomodará, esperando apenas a concretização da dádiva divina, comunicada pelo guru de almanaques?

Cada um reage diferentemente às respostas de distintos oráculos e videntes: rir-se delas e ignorá-las, constatar como uma hipótese a ser comprovada (ou não) ou dá-la como expressão da verdade. Aquele que escuta e acredita em uma resposta negativa a sua expectativa de aprovação num processo seletivo, pode se desanimar. Se, de fato, não conseguir o que almejava, foi porque estava escrito nas estrelas, ou nas palavras do guru, ou porque ele não estava preparado mesmo? Por outro lado, aquele que crê na luz afirmativa do guru e se acomoda não estará cimentando os alicerces de seu fracasso?

Refletindo sobre estas consultas, fui rever uma história da mitologia grega contada por Ovídio, sobre Pigmaleão, escultor e príncipe de Chipre. Ele esculpiu, no mais puro e alvo mármore branco, uma estátua, em sua busca da mulher ideal a quem deu o nome de Galatéa. Durante o processo de sua obra, cuidando e idealizando cada detalhe do corpo da mulher, que somava todas as virtudes que conhecera e sonhara numa mulher, Pigmaleão se apaixonou por sua obra. Desesperadamente apaixonado, suplicou à Afrodite (Deusa Grega do Amor) que concedesse um sopro de vida à sua estátua. Seu desejo foi concedido. Pigmaleão e Galatéa, sua mulher ideal, viveram felizes para sempre.

Esta história da mitologia foi aproveitada pelo dramaturgo britânico, Bernard Shaw, em sua peça “Pigmaleão”, transformada em musical para a Broadway e depois em filme, “My Fair Lady” (Minha Adorável Dama), com atuações inesquecíveis de Rex Harrison e Audrey Hepburn. O primeiro, interpretando Higgins, um professor de fonética que aposta com o amigo Pickering que conseguiria transformar Elisa Doolittle (vivida pela deslumbrante Hepburn), uma pobre florista inculta dos subúrbios de Londres em uma “socialite” que seria confundida como parte da nobreza europeia.

Depois de infindáveis lições para aprender a falar, vestir, andar, comer, Professor Higgins ganha sua aposta quando, numa festa de gala, um nobre encantado com a desconhecida (e nova) Elisa a descreve como uma princesa. O professor, embevecido com sua vitória, superestima seus dotes educacionais, em detrimento do esforço e paixão dedicados por Elisa, que frustrada o abandona, despertando no professor a paixão de Pigmaleão pela pedra bruta transformada em joia.

Será que este ou qualquer professor teria conseguido a façanha de Higgins sem o esforço extremo e a crença que Elisa tinha em seu íntimo de que conseguiria se transformar como o fez? Será que mesmo o mestre teria conseguido seu feito se ele, além de sua competência técnica, não “apostasse” que Elisa conseguiria parecer nobre?

Como o escultor que transformou um pedaço de mármore em sua mulher ideal e real, aquilo que acreditamos ser capazes de fazer ou ser e aquilo que apostamos fortemente que outras pessoas possam realizar, poderá acontecer.

Estas histórias serviram de pano de fundo de estudos científicos que tratam do “efeito Pigmaleão” ou “Profecia Auto-Realizável” comprovada por vários experimentos. Em um destes estudos, numa escola britânica, os professores foram informados sobre uma classificação da nova turma de alunos. Esta avaliação era totalmente arbitrária e não tinha nenhuma relação com seu desempenho acadêmico prévio. Algumas crianças tinham sido classificadas como “potencial excelente” e outras como “provavelmente não terão bom desempenho”. Ao final do ano, os pesquisadores encontraram uma correlação impressionantemente elevada entre o desempenho dos alunos e aquela classificação que nada tinha a ver com suas reais habilidades. A conclusão é de que as pessoas tendem a se desempenhar tão bem quanto o que esperamos delas.

Em sua aplicação relativa ao mundo empresarial, aquela “profecia” trata do papel do líder como gerador ou facilitador do desempenho de sua equipe. As realizações de uma equipe dependem enormemente da expectativa que seu/sua líder tem dela. Se esperarmos o melhor das pessoas, provavelmente, elas o perseguirão e terão sucesso.

Elisa Doolittle, a dama adorável de Bernard Shaw, argumenta sobre esse princípio com Pickering, que sempre a tratara como uma dama. Segundo Elisa, não tinha sido o que ela aprendeu a fazer que a transformou em uma dama, mas sim a maneira que ela fora tratada pelo colega do professor, mesmo quando era uma simples florista sem qualquer refinamento. Pickering a via como uma dama e ela correspondeu a estas altas expectativas.

Então as expectativas que os outros têm de nós podem determinar nosso sucesso ou fracasso? Quando buscamos as respostas mágicas de gurus e videntes sobre nosso futuro buscamos a confirmação vinda de outras pessoas de que seremos o que sonhamos ser ou obter. O Efeito Pigmaleão é verdadeiro e o constatamos diariamente.

Entretanto, não podemos nos considerar passivamente neste processo. O quanto acreditamos em nós mesmos e por isto, nos esforçamos, estudamos, dedicamos, é determinante no sucesso potencial em transformar uma estátua na mulher de nossa vida ou uma pobre florista numa duquesa. Também realizamos nossas próprias profecias de conseguir um emprego ou uma promoção se crermos e trabalharmos para tal.

Como nos ensina a arte e técnica do arqueiro, para atingir o centro do alvo, precisamos mirar para um ponto mais elevado. Devemos esperar mais de nós mesmos para conseguirmos, pelo menos, nossa meta, independentemente do que os gurus nos digam. Na vida real, excluindo-se aquilo que chamamos de sorte e está fora de nosso controle, não há atalhos para a realização de nossos sonhos.

Com Vya Estelar

 

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