Por Tomas Chamorro-Premuzic, CEO da Hogan Assessments

Esportes profissionais geralmente ilustram importantes princípios psicológicos e de vida, mesmo para o mundo dos negócios. Tradicionalmente, as discussões sobre liderança tendem a dar foco na equipe, mas ocasionalmente atletas individuais são aqueles que podem nos ensinar muita coisa sobre liderança, também. Veja algumas lições do extraordinário Muhammad Ali:

1- Moralidade é antissocial. A verdadeira liderança exige visão, e visão requer a inabilidade de aceitar o status-quo. Neste sentido, todos os líderes são um pouco antissociais: eles rejeitam as regras estabelecidas e as normas e oferecem uma perspectiva diferente – e melhor – sobre a realidade, que é a base do seu código moral. Mais importante, os verdadeiros líderes têm a integridade de viver por suas póprias crenças, mesmo quando isso significa ir contra a autoridade e sacrificar seus ganhos pessoais; e eles lidam com as consequências. Eles demonstram altos nívels de consistência entre o que eles dizem e o que fazem, e desafiam a elite. No final, seus pensamentos e ideais prevalecem sobre a velha ordem das coisas.

Os líderes só vão inspirar se a sua visão é congruente com as crenças e valores dos seus seguifdores e, ao fazer isso, eles também vão repelir aqueles que pensam e sentem de maneira diferente. Mas uma coisa é certa: se você não luta por nada, não tem convicções visíveis e apenas segue o que todo mundo faz, você não é líder. Por isso líderes são raros não apenas no mundo dos esportes, mas também na política e nos negócios.

2- Personalidade é um acelerador de talentos. Não importa quanto talento você tem: o mindset certo, um trabalho sério e correto, e um desejo de lutar por perfeição e ser o melhor é que irá fazer o seu talento brilhar. A falta desses comportamentos marca o caso dos indivíduos com uma predisposição inata de desenvolver talentos, mas com falta de vontade e determinação de viver plenamente todo seu potencial. Ali é um excelente exemplo: apesar de seu talento incrível, ele treinou e trabalhou como se não tivesse nenhum.

Desde cedo, na sua carreira, ele foi a primeira pessoa a chegar na academia, e última a sair – e ele odiava treinar. Quando consideramos que a intervenção para desenvolvimento de liderança mais efetiva envolve líderes que são mais afeitos ao coaching – eles se engajam por causa dos seus altos níveis de curiosidade, humildade e vontade de melhorar – está claro que o coaching tende a ajudar aqueles que menos precisam. Por outro lado, aqueles que mais precisam – líderes medíocres e ineptos – tendem a resistir ao coaching e ao desenvolvimento porque são arrogantes, complacentes, e ignoram sua incompetência.

3- Você não está se exibindo se pode sustentar o que diz. É difícil chamar Ali de modesto, e poucos atributos da sua personalidade eram tão marcantes quanto a sua autoconfiança. Entretanto, é inocente pensar que Ali era tão arrogante quanto seu estilo de autopreservação sugere.

Primeiro, sua autoconfiança pública era claramente uma tentativa calculada de entreter a mídia e intimidar seus oponentes. Segundo, isso também o ajudou a esconder qualquer traço de medo, tanto dos outros quanto de si mesmo.

Terceiro e mais importante, diferentemente das pessoas com mais autoconfiança e arrogância, Ali podia sustentar sua imagem. Esse ponto foi trazido à tona de uma maneira muito bonita por Barack Obama: “Muhammad Ali era o Maior. Ponto. Se você perguntasse a ele, era o que ele iria dizer. Ele diria que era duas vezes o maior: que ele prendeu o raio, e jogou o trovão na cadeia. Mas o que fez o Campeão o maior – o que realmente separava ele de todo mundo – é que todos diriam a mesma coisa [sobre ele].”

As pessoas são rápidas em trazer à tona as características de personalidade mais negativas em líderes super famosos. Por exemplo: Steve Jobs era emocionalmente volátil, Walt Disney era mau, Henry Ford era cruel. Este talvez tenha sido o caso, mas diferentemente dos lídere mais crueis e emocionalmente voláteis, eles tinham o talento, o trabalho ético e a visão para sustentá-los. Ainda que Ali não tenha sido um boxeador melhor sem a sua humildade, sem os talentos ele se pareceria com Donald Trump.